terça-feira, 10 de maio de 2011

Custo

É a gratuidade que faz com que seja amor, dom do amor.
Mas o sistema era bancário.

Quanto custa um ouvido por cinco minutos?
Tento seduzí-la pra não ter que pagar, e também pra não ser cobrada.

Não tenho um "puto" no bolso, mas dou cinco minutos em troca.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Invenção

São três diferentes de mim. Três que se amam.
Mas eu resisto.
Re existo.
Existo duas vezes mais.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ir

Maria,

agora há pouco meu pai me deu uns texto que escreveu há quinze anos atrás. São bons, Maria. Até que dariam um livro. Só me pergunto por que razão só agora os conheci. Já pensou? Escritor.

Outro dia, vasculhando os documentos da casa, que ficam numa pasta verde - e velha-, de plástico, achei um recorte de jornal já alaranjado, por conta do tempo. Havia uma foto dele, meu pai, bem jovem- de acordo com a data impressa tinha 20 anos-, cigarro na mão (naquela época não era imoral fumar, Maria) e uma entrevista. Ele contava do cursinho preparatório para vestibulares que havia fundado, e no qual também dava aula, numa cidade próxima da capital. Ousado, né?

E eu, minha amiga? Até quando pagarei mais caro por não agir?

Um beijo,
Judith.

terça-feira, 29 de março de 2011

No que dá?

Acordou angustiada, e suada, depois de um sonho recorrente.

Estava lá, mas não estava. Perdeu todo o tempo que lhe foi oferecido se tornando tudo o que não queria – teria perdido o tempo ou a oportunidade?

De repente uma escada rolante – eu escrevi rolando, mas e daí, ela rolava mesmo. Rolava pra cima. Do lado esquerdo uma enorme biblioteca-café (sabem?) com paredes de vidro. Lá dentro alguém, alguém que era tudo que ela não queria se tornar.

Não era à toa que a escada subia e deixava pra trás aquilo de que ela queria se afastar.

Nada se pode garantir sobre aonde a escada dá. É o “não saber” que faz o suor escorrer, é o abismo, é o buraco cheio de nada.

My Best Friend's Girl

Ele, um cafajeste que se apaixona, mas por pensar só saber ser cafajeste, assim como seu pai, decepciona a moça.
Arrependido, vai atrás do objeto de seu desejo.
A moça corria no parque. Era apaixonada pela corrida.

Ele, que fumava e não praticava esportes, mostrou um condicionamento físico invejável pra alcançar sua amada. Implorou seu perdão, mas ela disse que ele não gostava de ler nem de cinema, e, além disso, não se afeiçoava a nenhum esporte. Por essas razões ela conluía que ele não era capaz de se apaixonar por nada.

As palavras da moça ressoavam e ele descobriu, de repente, que não precisava repetir a história do pai, e que sua mãe era uma mulher romântica e fiel.

Viveram felizes para sempre.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Nota rápida e rasteira

Maria,

O que faremos do tempo não sei dizer, quanto menos da vida. Mas certamente, pra não deixar de ser alguém que gerundia, mesmo que contra a vontade, eu diria que tudo será no seu tempo. Vá caminhando, cantando, bebendo, caindo e levantando, se for possível.

Ando um tanto quanto entorpecida e emburrecida nos últimos tempos, por isso a falta de notícias, mas saiba que estamos num mesmo barco.

Um beijo,

Judith.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um brinde!

A morte acompanha os exageros. Mesmo aqueles dos quais nos orgulharíamos de morrer a favor.

Morrer de amor;
Morrer de felicidade;
Morrer de rir e de dançar;
Aproveitar até morrer.

Quanta alegria!

Mas cuidado com o prosecco, pois ele pode realmente fazer deste dia o último - ou, no mínimo, com que você clame que seja!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dispersão

Do amor já escutei dizer que era uma escolha. E, afinal, o que não é?

Até então o imaginava como uma massa de fumaça, que, de repente, se instalaria no meu coração, e no coração ficaria, alojado. Tão eterno, tão etéreo.

(...) fumaça não é sólida.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Trocado

Com olhar infantil, a mulher, já formada, mendigava.

Lembrava-se da pergunta que fizeram pra ela há tempos: “Você ainda me ama?”, e viveu como se a vida fosse repetidamente isso.

- Você me ama?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E o desejo?

Maria,

já reparou como o homem é estranho? Não só o homem do sexo masculino, pois esse nós já sabemos claramente de sua estranheza, apesar dos atributos, mas todo homem, Maria.

Retomei minhas leituras psicanalíticas, pra me sentir menos estúpida, porque andei muito hedonista nos últimos dias - não sei porque comparo o hedonismo à estupidez, aliás, talvez eu saiba.

O gozo é além do prazer. O corpo entregue ao silêncio e à dor, e repete, mesmo próximo da morte. Terá isso tudo algo a ver com o hedonismo e a estupidez?

Um beijo,

Judith.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Tomé

Sempre pensei que fosse uma mulher de pouca fé.

Conversava com Deus só com uma quase certeza de que ele estava ali, mas era uma quase, sempre uma quase.

Com a psicanálise era a mesma coisa. Pego-me rindo quando lembro que, para mim, acreditar na análise era quase uma questão de fé, e eu tinha uma quase certeza de que dava certo.

Brincava que homeopatia só funcionava com muita fé. E eu, de tão pouca fé, nem ousava usar.

Tenho feito, hoje, todas essas coisas com tanta fé, que me desconheço. Tenho uma quase certeza de que elas sempre funcionaram muito melhor do que podia crer, só eu não via.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Meus irmãos, "

"É mais fácil pisar no pé de quem anda na mesma calçada do que no daquele que está do outro lado da rua.".

E depois de ouvir as palavras do pastor na pregação, voltou andando pra casa e tropeçou no próprio pé esquerdo.

Concluiu que era mais fácil pisar no próprio pé, então.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ar quente

Maria,

sabe que nem sei por quê reclamo tanto do calor. Acho que é só pra reclamar, como todos têm feito, porque, de verdade, quase não o sinto. Da minha cadeira olho pela janela e vejo o céu que está mais azul do que nunca. Há vento também, porque as árvores balançam. Mas é só por isso que sei do vento, já que as janelas estão fechadas e o ar-condicionado tão gelado que me incomoda. Mas não deixo de estar contente, pelo menos tenho um ar-condicionado.

Lembra-se das férias de três meses? Eu não tinha dinheiro, mas tinha tempo, vento, calor...
Ando nostálgica.

Beijos,
Judith.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Deixando tudo

As despedidas eram como virar páginas de um livro que seria guardado novamente na prateleira e de lá não sairia por anos. Tornaria-se empoeirado, velho e amarelado - isso era o que pensava, porque uma vez lidas, aquelas palavras já estavam em suas entranhas, e retornariam. Não sei como, mas elas voltariam.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

N.O.

Qual cor combina mais com o meu cabelo e com as unhas?
E a roupa, uso essa hoje, ou amanhã, que possívelmente fará sol?
E se não fizer?
Faço a prova se não estudei suficientemente?
Nunca é.
E as cadeiras, pretas ou cinzas?
A faxina, nessa semana ou na próxima?
Ligo agora ou depois?
Digo ou calo?
Desculpa?
Sim ou não?


Estou vivo ou morto?