Devolva-me as palavras, pois antes mesmo de chegar ao "perdoai as minhas dívidas" já adormeci, sono profundo.
Perguntei ao mais moderno aparelho eletrônico qual era o sentido da vida e ele me respondeu : All evidences to date suggests it`s chocolat. Então eu comi, me empanturrei, sem colocar ali uma palavra sequer.
Minha corpulência é meu único baluarte.
Meus passos pesados, uma cavalaria anunciando minha chegada, e assim, mesmo tímida, nunca passo desapercebida
What`s the meaning of life? Não nos deixeis cair em tentação...
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
Consolo
“Vamos, não chores
A infância está perdida
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu
O primeiro amor passou
O segundo amor passou
O terceiro amor passou
Mas o coração continua
Perdeste o melhor amigo
Não tentaste qualquer viagem
Não possuis carro, navio, terra
Mas tens um cão (...)”
Ah, Drummond, acho que são só as suas palavras que posso oferecer, porque eu mesma já não posso lá estar - "toda ouvidos".
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Vamos sair pra ver o sol
E na escola te ensinam que que “o homem nasce, cresce, reproduz e morre”.
No meio disso o homem apanha, chora, pede peito, rasga o livro, põe o dedo na tomada, baba, não precisa mais de fraldas, fala! Come bolinho de chuva, canta de olhinhos fechados embolando as palavras, brinca de ser super-herói, faz teatro, morde o priminho, faz prova, balé, natação, vôlei, jiu-jitsu, dança, beija pela primeira vez, pela segunda vez, pela terceira vez, chora por amor, porque brigou, foge de casa com uma maçã e um gibi do Chico Bento, imita sua mãe, pede proteção do pai, bebe, se arrepende, estuda, encena, seduz, trabalha, beija pela décima vez, mente e odeia.
E se deixa de realizar o seu desejo, diz que é para o bem, e bem de quem?
quarta-feira, 9 de maio de 2012
A roda é redonda
Canela, sardinha, repolho, gengibre, beterraba, quinua, acelga, a poderosa linhaça, radicais livres. Perca peso sem esforço, turbine o poder, afaste as doenças, ilumine sua pele, proteja seu corpo, corpo fechado, mente fechada, sorria, cante, o corpo dos sonhos!
Seria o conteúdo dos seus anseios ou o torneado dos seus glúteos o prato de hoje?
Não fume! Aliás, fume para não engordar, não coma carne, não beba álcool e nem tome café. Masque chicletes de nicotina.
Com quantas obrigações se destrói o prazer de aproveitar a vida? Sorria!
Testosterona, progesterona, tiroxina, cleptomania, ocitocina, orgasmos múltiplos. Goze! Ocitocina no nariz.
Filtre todo sol, toda luz, todo calor, tudo o que é visível. Esconda-se sob um pigmento denso, você permanecerá eternamente lindo, até o caixão. Osteoporose à parte, suplemente tudo!
A vida é um palco iluminado, dance, sapateie, êxtasie-se! Fluoxetina, Sertralina, Citalopram, Efexor, Delírios, um drink, por favor!
Adoce sua vida com um botox, preencha todo seu vazio com ácido hialurônico, ou metacrilato, se quiser viver perigosamente. Saque um hormônio bioidêntico, uma taça de resveratrol, uma porção de coenzima Q10, 3 cápsulas de ômega 3 grelhadas, salpicadas com sementes de romã, e uma tal de chia, que dizem ser melhor que a poderosa linhaça.
Feijão branco faz correr sem sair de casa. Gargalhe! Hidro-cólon-terapias com sal grosso e limão, podem te levar ao céu, com abdômen tanquinho.
Como nossos antepassados sobreviveram sem todo esse conhecimento?
sexta-feira, 20 de abril de 2012
As maiores dores
Era noite, e um trote os levou à delegacia para registrar um boletim. Não era qualquer noite, era sexta-feira à noite, e qualquer coisa seria melhor que uma fila de desolados.
De camisa social branca e calça, daqueles tecidos calorentos, preta, imaginei que fosse de alguma igreja evangélica, Seu Jurandir dizia, inconsolável, que nunca havia pisado numa delegacia antes, e que nenhum homem da família havia dado problemas como seu filho. Tentava se convencer de que a culpa não era sua e justificava sua decisão de não entrar para vê-lo.
-Era um menino trabalhador, frequentava a igreja. Depois deu pra colocar um monte brinco, fazer tatuagem nos braços e pintar cabelo de branco! Eu nunca passei por isso na minha vida!
A esposa silenciosa, de blusa de manga, barriga saliente, saia longa e chinelos de dedo, entrou delegacia adentro apenas com um papel em mãos. Pouco tempo depois saiu com um choro estancado na garganta, cobrindo seu rosto com a mesma folha, mas ao sair pela porta rompeu o silêncio com um brado, e chorava o que parecia ser a maior dor do mundo.
As maiores dores do mundo cabem em espaços muito pequenos.
De camisa social branca e calça, daqueles tecidos calorentos, preta, imaginei que fosse de alguma igreja evangélica, Seu Jurandir dizia, inconsolável, que nunca havia pisado numa delegacia antes, e que nenhum homem da família havia dado problemas como seu filho. Tentava se convencer de que a culpa não era sua e justificava sua decisão de não entrar para vê-lo.
-Era um menino trabalhador, frequentava a igreja. Depois deu pra colocar um monte brinco, fazer tatuagem nos braços e pintar cabelo de branco! Eu nunca passei por isso na minha vida!
A esposa silenciosa, de blusa de manga, barriga saliente, saia longa e chinelos de dedo, entrou delegacia adentro apenas com um papel em mãos. Pouco tempo depois saiu com um choro estancado na garganta, cobrindo seu rosto com a mesma folha, mas ao sair pela porta rompeu o silêncio com um brado, e chorava o que parecia ser a maior dor do mundo.
As maiores dores do mundo cabem em espaços muito pequenos.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Índices
Encontrei a natalidade nos índices de saúde da população.
É Natália, nessa idade eu já era casada, trabalhava pesado e tinha filho nas costas.
É Natália, nessa idade passarinhos já voaram, e os cães até já morreram .
Natália, na sua idade seu avô já era quase vô, sua avó quase vó, e eu quase fui feliz.
Na sua idade, Natal era época de esperança e eu fazia lista pro ano que viria, pensava ardentemente em casar com o moço do carnaval e contava as moedas pra casa que eu construiria.
E você, Natália?
Na tal idade que tem, age como se fosse morta.
É Natália, nessa idade eu já era casada, trabalhava pesado e tinha filho nas costas.
É Natália, nessa idade passarinhos já voaram, e os cães até já morreram .
Natália, na sua idade seu avô já era quase vô, sua avó quase vó, e eu quase fui feliz.
Na sua idade, Natal era época de esperança e eu fazia lista pro ano que viria, pensava ardentemente em casar com o moço do carnaval e contava as moedas pra casa que eu construiria.
E você, Natália?
Na tal idade que tem, age como se fosse morta.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Holy Dream
Há sempre tantas tatuagens. Monstros , amores e outros demônios.
Essa era uma cópia da de alguém.
Jesus Cristo emergindo de uma densa e fofa nuvem, como aquelas de desenhos animados. Parecia Netuno, embora fosse do céu que surgia.
Cobriria minhas costas, de ombro a ombro. Havia um "+4" escrito no meio das nuvens.
Jesus Cristo, nuvens e +4, eu e eles.
Essa era uma cópia da de alguém.
Jesus Cristo emergindo de uma densa e fofa nuvem, como aquelas de desenhos animados. Parecia Netuno, embora fosse do céu que surgia.
Cobriria minhas costas, de ombro a ombro. Havia um "+4" escrito no meio das nuvens.
Jesus Cristo, nuvens e +4, eu e eles.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Tô rindo?
Maria,
Ontem encontrei um velho amigo, dos tempos de escola, amoçamos juntos. Ele está de passagem, porque mora longe. Veio aprender mais da profissão, e ele tem quase 60, Maria. Ainda aprendendo. E a gente achava que haveria um momento em que tudo já teria sido aprendido!
Contou dos filhos. A menina seguiu seus passos, casou, separou, casou de novo, deu-lhe netinhos. O outro viajou, voltou, formou, e lhe deu um neto que nunca conheceu. O mais novo namora a mesma moça desde os 12 anos e agora vão se casar. Sua esposa, sim, a esposa do meu amigo, é uma companheirona. Mudou-se com ele, sempre com alegria, para todos os lugares para os quais foi a trabalho, fazendo malas, empacotando as lembranças.
Eles são felizes, são ousados. Lembramo-nos dos almoços em marmitas, das brincadeiras na sala de aula, das noites viradas sobre os livros, e rimos meio conformados, porque se nem tudo foi como imaginávamos é porque a vida é assim mesmo, mas é boa, apesar de tudo.
Como dizia aquela música que você cantarolava na semana passada : "vamos dando risada que a vida nos chama não da pra chorar (...)"
Um beijo,
Judith.
Ontem encontrei um velho amigo, dos tempos de escola, amoçamos juntos. Ele está de passagem, porque mora longe. Veio aprender mais da profissão, e ele tem quase 60, Maria. Ainda aprendendo. E a gente achava que haveria um momento em que tudo já teria sido aprendido!
Contou dos filhos. A menina seguiu seus passos, casou, separou, casou de novo, deu-lhe netinhos. O outro viajou, voltou, formou, e lhe deu um neto que nunca conheceu. O mais novo namora a mesma moça desde os 12 anos e agora vão se casar. Sua esposa, sim, a esposa do meu amigo, é uma companheirona. Mudou-se com ele, sempre com alegria, para todos os lugares para os quais foi a trabalho, fazendo malas, empacotando as lembranças.
Eles são felizes, são ousados. Lembramo-nos dos almoços em marmitas, das brincadeiras na sala de aula, das noites viradas sobre os livros, e rimos meio conformados, porque se nem tudo foi como imaginávamos é porque a vida é assim mesmo, mas é boa, apesar de tudo.
Como dizia aquela música que você cantarolava na semana passada : "vamos dando risada que a vida nos chama não da pra chorar (...)"
Um beijo,
Judith.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Mentira
Quanta gente feliz!
Feliz e confinada que é pra ninguém sentir o cheiro.
Vamos só nós, sempre sós, pra que ninguém veja o tamanho dos buracos.
Sem paredes e de porta sempre fechada, pra que nos misturemos, mas só uns com os outros e nunca com nada lá fora.
Gás vazante, esperando por qualquer faísca, luzes apagadas, velas engavetadas, não podemos correr riscos.
“Os mais importantes somos nós!”. Nós nunca desatados, uma dívida sem fim.
Palavras pobres, prioridades podres.
Sorriso no rosto, porque ser bom é o que interessa.
Quanta gente infeliz...
Feliz e confinada que é pra ninguém sentir o cheiro.
Vamos só nós, sempre sós, pra que ninguém veja o tamanho dos buracos.
Sem paredes e de porta sempre fechada, pra que nos misturemos, mas só uns com os outros e nunca com nada lá fora.
Gás vazante, esperando por qualquer faísca, luzes apagadas, velas engavetadas, não podemos correr riscos.
“Os mais importantes somos nós!”. Nós nunca desatados, uma dívida sem fim.
Palavras pobres, prioridades podres.
Sorriso no rosto, porque ser bom é o que interessa.
Quanta gente infeliz...
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Mulheres
Girassóis são para mulheres.
Atrapalhada, com mãos abrutalhadas, tiro pétala por pétala.
“Mal me quer, mal me quer, mal me quer, mal me quer,....”.
Rabisco o rosto de Jesus, com traços infantis. Pergunto a ele todas as noites, enquanto quase durmo: Insisto?
E ele disse que mesmo que meu pai e minha mãe me abandonarem ele me acolherá.
Pego carona nas asas de Fênix, renascendo das cinzas, e estraçalho o girassol.
"Bem me quero, bem me quero, bem me quero, bem me quero,..."
Atrapalhada, com mãos abrutalhadas, tiro pétala por pétala.
“Mal me quer, mal me quer, mal me quer, mal me quer,....”.
Rabisco o rosto de Jesus, com traços infantis. Pergunto a ele todas as noites, enquanto quase durmo: Insisto?
E ele disse que mesmo que meu pai e minha mãe me abandonarem ele me acolherá.
Pego carona nas asas de Fênix, renascendo das cinzas, e estraçalho o girassol.
"Bem me quero, bem me quero, bem me quero, bem me quero,..."
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Rodoviária
Há um mijo parado, curtindo, enlodando, que não sai do lugar. Corrói e fede, progressivamente.
Na rodoviária são todos passantes.
Na rodoviária são todos passantes.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Boticão
Começo com mão no rosto e pouco riso.
Tento disfarçar as falhas com malabarismos invisíveis, mas elas me escapam.
Outro dia Lúcia me contava de quando era menina. Nem perguntaram seu nome e já foram assim, arrancando seus dentes, e dando beliscão no braço em seguida, pra esquecer da dor na boca.
Hoje tem de mentira.
É dos de mentira que me valho, como Lúcia. E é com os de mentira que a gente se vira, do jeito que dá, na vida, fazendo malabarismos no escuro.
Termino pintando de coral a boca sem dentes e gargalho com todos à mostra.
Os de verdade e os de mentira.
Tento disfarçar as falhas com malabarismos invisíveis, mas elas me escapam.
Outro dia Lúcia me contava de quando era menina. Nem perguntaram seu nome e já foram assim, arrancando seus dentes, e dando beliscão no braço em seguida, pra esquecer da dor na boca.
Hoje tem de mentira.
É dos de mentira que me valho, como Lúcia. E é com os de mentira que a gente se vira, do jeito que dá, na vida, fazendo malabarismos no escuro.
Termino pintando de coral a boca sem dentes e gargalho com todos à mostra.
Os de verdade e os de mentira.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Midnight, aqui mesmo
Eram os mesmos sofrimentos há tanto, às vezes travestidos, mas os mesmos...
Uma dor de existir, uma depressão sem remédio, sem desejo.
Botava a culpa na escolha de fazer a vontade de Deus, citando palavras de um amigo: "Para toda escolha há uma dor. Para a escolha certa a dor vem de resistir ao prazer agora para um grande ganho mais tarde. Para a escolha errada há o prazer agora e uma longa dor depois."
Não percebia que não se tratava de Deus, mas de seu eterno adiamento da realização de suas paixões. Da desistência dos sonhos, ou de qualquer pequeno plano, pra nunca ser aquela que pode até fracassar, mas porque foi.
Uma dor de existir, uma depressão sem remédio, sem desejo.
Botava a culpa na escolha de fazer a vontade de Deus, citando palavras de um amigo: "Para toda escolha há uma dor. Para a escolha certa a dor vem de resistir ao prazer agora para um grande ganho mais tarde. Para a escolha errada há o prazer agora e uma longa dor depois."
Não percebia que não se tratava de Deus, mas de seu eterno adiamento da realização de suas paixões. Da desistência dos sonhos, ou de qualquer pequeno plano, pra nunca ser aquela que pode até fracassar, mas porque foi.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Nota do autor
Este blog não se pretende constituir um livro de verdades (apenas as minhas, é claro, pois a verdade é de cada um).
Este blog não contém nenhum ensinamento ou histórias com morais quando acabam.
Este blog é apenas uma tentativa de afastar os demônios, que, nos meus sonhos, aparecem como dragões chineses feitos de papel de seda.
Este blog não contém nenhum ensinamento ou histórias com morais quando acabam.
Este blog é apenas uma tentativa de afastar os demônios, que, nos meus sonhos, aparecem como dragões chineses feitos de papel de seda.
As tais luvas azuis
Queixava-se incessantemente, dizendo ao mundo que a vida era seu algoz. Queixava-se das luvas azuis nas quais ela não queria caber, do desinteresse da outra por seu suflê de amêndoas e seu tocar de flauta.
Queixava-se das poucas refeições feitas por dia, não pela falta de comida, mas pela falta do tempo que dizia não conseguir se dar.
Queixava-se dos anos, mais perdidos que investidos, em todas as coisas que não queria.
Tudo isso em nome de todos aqueles que não a davam em troca.
Troca.
Troca tudo.
Troca e vê que também te oferecem suflê e você é quem não quer.
Troca e ouve a sinfonia feita com todos os instrumentos do Universo que compuseram para você.
Troca e acorda pro quanto se repete, como um disco riscado, todos os dias de sua vida.
Queixava-se das poucas refeições feitas por dia, não pela falta de comida, mas pela falta do tempo que dizia não conseguir se dar.
Queixava-se dos anos, mais perdidos que investidos, em todas as coisas que não queria.
Tudo isso em nome de todos aqueles que não a davam em troca.
Troca.
Troca tudo.
Troca e vê que também te oferecem suflê e você é quem não quer.
Troca e ouve a sinfonia feita com todos os instrumentos do Universo que compuseram para você.
Troca e acorda pro quanto se repete, como um disco riscado, todos os dias de sua vida.
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